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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Barão de Itararé e o caso dos 9 chineses — uma obra do "corvo" da UDN


"Enquanto integrantes da delegação passeavam pela China, no Brasil, a situação política se complicava. E muitos, ao receberem as notícias do país pela imprensa chinesa, pegaram o avião de volta preocupados com o futuro do governo Goulart. O próprio Barão falara à imprensa já em janeiro de 1963: "Espero um golpe de Estado de um momento para outro, tanto assim que, quando saio à rua, sempre levo minha pasta, ostensivamente." Sua esperança — explicava — era ser nomeado ministro com pasta pelo novo governo, por achar "uma indignidade ser ministro sem pasta, por mais modesta e vagabunda que seja". Manifestando certo receio, explicou que dera ao governo "um crédito de confiança que pode ser pago a longo prazo". Achava apenas que as anunciadas reformas de base deveriam ser bem planejadas, "simplesmente porque se não forem muito bem craniadas, poderão sofrer uma fratura na base do crânio".

Os passos dados pelo governo Goulart e o desfecho da crise política confirmariam os piores temores do Barão, que mal teve tempo para relatar aos companheiros os detalhes da viagem. Em 19 de fevereiro de 1964, foi um dos convidados para a posse da nova diretoria da Sociedade Cultural Sino-Brasileira. Nos salões do palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, tendo ao seu lado nomes como Paiva Muniz (deputado pelo PTB e marido da prima Sílvia) e o senador Aarão Steinbruch, Apporelly fez um breve discurso registrado por um policial do DOPS que, ainda no governo Goulart, acompanhava as atividades promovidas pelos comunistas: "A seguir, falou o Sr. Apparício Torelly, que começou dizendo que não estava ali para pregar a revolução, porque revolução não se prega... vai-se fazendo. Ajuntando que não se deve pedir licença aos outros para fazer revolução porque, se pedir, ninguém dá."

Seria a última vez que falaria em público. O golpe de 31 de março de 1964, ocorrido cerca de três meses depois de sua volta ao Brasil, surpreendeu o Barão com amigos da missão comercial chinesa quando passavam de carro pela avenida Atlântica e presenciavam o movimento de tropas no Forte de Copacabana. Na euforia da vitória, muitos partidários do golpe tinham saído às ruas para comemorar. Alguns deles já olhavam de cenho franzido e expressão desconfiada para aquele automóvel cheio de chineses.

(...)

Nos dias seguintes ao golpe, Apporelly perceberia o risco que correra ao aparecer em público ao lado dos amigos chineses. Funcionários do governo de Pequim, eles tinham chegado ao Rio para abrir uma missão comercial depois da visita que João Goulart fizera à China em 1961, ainda como vice-presidente. Procurando dar início a um intercâmbio maior entre os dois países — na época ainda sem relações diplomáticas formais — eles estavam ocupados nos últimos tempos com negociações para a compra de algodão brasileiro e a organização de uma exposição sobre produtos industriais chineses. Entre jornalistas, diplomatas e funcionários da área de comércio exterior eram ao todo nove os chineses que integravam a missão. Os primeiros haviam chegado em 1961 e os últimos nos primeiros meses de 1964. Devido ao seu trabalho à frente da Sociedade Cultural Sino-Brasileira, Apporelly tinha mesmo ido ao aeroporto receber um dos grupos que havia chegado ao Rio. Instalados em dois apartamentos no Flamengo, não longe da casa de Apporelly, alguns naturalmente estabeleceram relações de amizadee com ele.

Pouco antes, o humorista falara sobre sua viagem à China diante de uma plateia de cerca de setecentas pessoas, reunida no auditório do Ministério da Educação, no centro do Rio, durante a posse da nova diretoria da Sociedade Cultural Sino-Brasileira, encabeçada por Adão Pereira Nunes como presidente. Não era surpreendente que Apporelly integrasse a diretoria dessa sociedade, da mesma forma que outras personalidades filiadas ou próximas ao Partido Comunista mantinham atividades semelhantes. Desse modo, Oscar Niemeyer era presidente do Instituto Cultural Brasil-Cuba, do qual faziam parte também Jorge Amado, Di Cavalcanti, Dias Gomes e até o radialista Sargentelli. Mesmo antes do golpe, durante o governo João Goulart, essas listas eram cuidadosamente registradas nos relatórios da Divisão de Polícia Política e Social. Depois de abril de 1964, os novos donos do poder fariam uso delas — e o nome de Apparício Torelly teimava em aparecer em quase todas.

Em 4 de abril de 1964, ao passar os olhos pelas primeiras p[aginas dos jornais para se inteirar da confusa situação criada pelo golpe, o Barão se surpreendeu ao ver as fotografias de alguns chineses ao lado de quem, apenas três dias antes, passeara por Copacabana. "Espiões chineses iam assassinar Lacerda, Kruel e Castelo Branco", revelava o Diário de Notícias. "Presos nove agentes comunistas chineses que vieram matar Carlos Lacerda", anunciava a manchete de O Jornal. "Personalidades brasileira estavam marcadas para morrer", informava O Globo. Ao procurar detalhes, sob outro título do Diário de Notícias ("Mao Tsé mandou matar à chinesa"), Apporelly e milhares de leitores espantados puderam ler o seguinte:

A China de Mao Tsé mandou ao Brasil nove homens com a incumbência de assassinar o Sr. Carlos Lacerda e os generais Amauri Kruel e Castelo Branco. Iam usar no crime o chamado "processo chinês": uma injeção indolor que fulmina instantaneamente e que seria aplicada no momento em que o criminoso se aproximasse da vítima simulando um encontrão.

Até as agulhas de acupuntura encontradas em poder do grupo foram apreendidas: as técnicas de medicina oriental eram desconhecidas na época e suspeitava-se de sua possível relação com o assassínio "à chinesa". Na imaginação dos leitores mais ingênuos, as acusações talvez evocassem imagens de velhos filmes de mistério em preto e branco da série de Charlie Chan, nos quais Lacerda ou Castelo Branco desfalecidos e amarrados a uma mesa se veriam cercados por vilões chineses manipulando instrumentos misteriosos e de aspecto sinistro. No entanto, para os acusados — e para os brasileiros que se relacionavam com eles — a situação estava longe de ser cômica.

O quadro fantasioso era resultado das diligências realizadas pelos delegados do DOPS que, liderados pelo coronel Gustavo Borges, secretário de Segurança do Estado da Guanabara, invadiram, na madrugada anterior, os dois apartamentos ocupados pelos chineses, na rua Senador Vergueiro e na rua Almirante Tamandaré. Foram presos Wang Yao Ting, o chefe da representação comercial, e os oito funcionários: Wang Ei Chen, Chu Chin Tung, Hou Fa Tseng, Wang Chin, Su Tze Ping, Chang Pao Cheng e Sung Kuei. "No rico apartamento dos estrangeiros", continuava o jornal, foi apreendido um pequeno vocabulário chinês com palavras traduzidas para o português. Aquelas palavras, aparentemente inocentes, na verdade eram "senhas para realizar guerrilhas e agitação", explicou um dos delegados do DOPS.

As quantias em dólar encontradas ali eram destinadas ao aliciamento e à compra de favores de políticos — como o governador de Pernambuco, Miguel Arraes — e personalidades "colaboracionistas" — como o jornalista Samuel Wainer, do Última Hora. "Eles montaram uma máquina de corrupção e de traição como não conhecíamos nem na época do Eixo", revelou o coronel Borges. O mesmo militar informou à imprensa que com os chineses dora apreendida uma lista "com nomes de autoridades e de pessoas influentes no Brasil, todas com sentença de morte lavrada pelos agentes do comunismo internacional". E continuava: "Diante dos nomes em caracteres chineses, está a forma de execução, que varia do enforcamento ao fuzilamento". Abriam a lista os nomes de Lacerda e do general Kruel, "ambos com sentença de morte por fuzilamento". A missão comercial, posta sempre entre aspas, tinha, segundo a imprensa, outros objetivos. "Já está certo que os chineses eram membros do grupo de estrangeiros que na localidade de Sant'Anna de Japuíba, Estado do Rio, estavam preparando as guerrilhas para dominar o sertão daquele estado e os demais próximos". A polícia acreditava estar diante da ponta de um iceberg: "As autoridades do DOPS estão convencidas de que pelo menos 200 chineses atuavam na Guanabara a serviço de Mao Tse Tunh", dizia O Globo. O que os leitores dos jornais não poderiam saber (a informação ficaria restrita aos autos do inquérito militar) é que os funcionários chineses haviam sido espancados sistematicamente desde os primeiros momentos da sua prisão.

Como era de se esperar, os outros 192 chineses que estavam para ser presos "nas próximas horas" jamais se materializaram. Também não apareceram provas que dessem sustentação a acusações tão mirabolantes. No entanto, com a ajuda da grande imprensa, o clima de histeria estava criado. Um Inquérito Policial Militar (IPM), dirigido pelo coronel Luiz de França Oliveira, não demoraria a ser instaurado no Conselho Permanente de Justiça da 2ª Auditoria de Guerra, no quartel da rua Barão de Mesquita. A análise dos diários, cadernetas de endereços e anotações dos chineses mostrava que Apparício Torelly estava entre os nomes de brasileiros mais citados. Fosse em respeito à sua idade, ao seu prestígio ou devido ao caráter discreto da sua atuação política, Apporelly não seria incluído entre coréus ao lado de chineses, acusados de subversão e espionagem. Entre estes estavam comunistas politicamente próximos a Pequim, como João Amazonas e Maurício Grabois, além de nomes como Max da Costa Santos, o ex-deputado Adão Pereira Nunes, o presidente da Sociedade Sino-Brasileira, e Raquel Cossoy, secretária da entidade.

A flagrante injustiça no tratamento concedido aos chineses conferiu ao episódio um caráter emblemático das truculências jurídicas que se acumulariam a partir de 1964, e, provavelmente por isso, o caso atraiu a atenção do advogado Sobral Pinto, que assumiu a defesa do grupo sem qualquer remuneração; os réus brasileiros foram defendidos por Raul Lins e Silva. Presos, ainda esperariam o julgamento por nove longos meses.

Em dezembro de 1964, arrolado como uma das testemunhas de defesa, Apporelly depôs diante do Conselho, acompanhado por Sobral Pinto e por Lins e Silva que o observavam, sentados no fundo da sala de audiências. A rigor, o Barão falava como testemunha de Raquel Cossoy, que também esra funcionária da Assembleia Legislativa, mas sua intervenção favoreceria todos os acusados, uma vez que o principal objetivo do depoimento era confirmar o caráter puramente cultural da associação de que participava e o sentido exclusivamente comercial e diplomático das atividades dos chineses."

(in "Entre sem bater — A vida de Apparício Torelly — O Barão de Itararé, Cláudio Figueiredo, Casa da Palavra - 2012)

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