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quarta-feira, 12 de julho de 2017

PSDB: preço do apoio ao golpe é o racha

Zveiter usou o arpão, Temer sangra excitando os tubarões no mar político agitado mas o PSDB não consegue decidir-se entre deixar o governo ou engajar-se em sua impossível defesa. A reunião dos caciques ontem em São Paulo serviu apenas para expor e aprofundar a divisão do partido, explicitando o drama que os tucanos já não conseguem esconder de si mesmos: o preço por terem apoiado o golpe contra a presidente eleita Dilma Rousseff, num pacto satânico para remover o PT do governo, pode ser um racha que terá efeitos danosos sobre seu futuro. Como a cúpula não decide, o desembarque está sendo feito à base do "salve-se quem puder", e isso deixará sequelas. 

O PSDB é fruto de um racha do PMDB, obra de peemedebistas desconfortáveis no partido que, depois de ter liderado a transição sob o comando de Ulysses Guimarães, resvalou para o mais rasteiro fisiologismo, já com laivos de corrupção, sob o comando de Orestes Quércia. Como naquele tempo, hoje há tucanos profundamente insatisfeitos com o embarque no governo golpista de Temer, em troca de quatro ministérios e muito desgaste. Estes estão principalmente na bancada da Câmara, onde os tais “cabeças pretas”, deputados mais jovens e antenados com o espírito do tempo e das ruas, regurgitam diante da relutância dos caciques em romper com Temer, apontando claramente que sua permanência na chefia do governo é eticamente insustentável, é nefasta ao país e à democracia. A posição majoritária da bancada encontra eco forte nas instâncias intermediárias, e disso foi exemplo a nota do prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando, que cobrou: “Nosso partido precisa urgentemente retomar a missão de representar verdadeiramente seus eleitores e suas bandeiras. O primeiro passo para isso é ouvir a sua base e a voz do povo brasileiro.”

Mas há também aqueles que, mesmo não ocupando cargos no governo, ou não tendo sido parceiros eméritos do golpe, como Aécio Neves, defendem o apoio ao governo. O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, cobrou uma defesa corajosa do presidente que colocaram no Planalto forçando as condições para o impeachment. Foi o que ele disse em sua carta de ontem ao comando partidário, criticando a seletividade do encontro e a tibieza dos dirigentes. Lembrou feitos de Temer, como a queda da inflação e o amainar de recessão, mas não disse uma palavra sobre as graves acusações que contra ele pesam, esquecido, como outros tucanos, da contundência com que espancavam os petistas quando as rajadas da Lava Jato ainda atingiam apenas o PT. A posição de Aécio explica-se por sua própria situação. O governador Alckmin parece recear que um novo presidente, como Rodrigo Maia, possa tornar-se um competidor seu em 2018. Assim são as razões tucanas. Ora pessoais, ora de conveniência.

O PSDB não tem condições para tomar decisão unitária alguma. Perdeu-se, e distanciou-se da própria história, quando apoiou o golpe parlamentar de forma oportunista, acreditando que Temer seria uma boa pinguela, sobre a qual atravessariam rumo a uma vitória em 2018. Sabiam que a madeira era podre mas achavam que seria possível iludir o Brasil na travessia. Temer não seria alcançado por crimes ocorridos antes do exercício do mandato. O que eles não esperavam é que ele propiciasse um crime recente, no curso do mandato, ao receber Joesley Batista às altas horas, no escuro da garagem do Jaburu, para confabulações tenebrosas.

O relator Zveiter, com seu voto desta segunda-feira na CCJ, cravou fundo o arpão em Temer. O voto teve consistência jurídica e força política, e funcionará como tábua de justificação para os que governistas que preferem enterrar logo este governo que apoiam, em busca de alguma normalidade política. O que ele disse, em resumo, é indiscutível: se Temer recebeu ou não propina da JBS, quem vai apurar é o STF. Agora, trata-se de decidir se a sociedade tem ou não o direito de ver as suspeitas esclarecidas. Elas existem e são graves. Ninguém contesta o fato de ele ter se reunido com Joesley, ninguém nega a impropriedade da conversa e muito menos o fato de Loures, por ele indicado para atender aos interesses do homem da JBS, ter recebido uma mala com R$ 500 mil. Isso posto, a abertura do processo é imperativa. E para isso, Temer tem que ser afastado, por ordem da Constituição.

Nem por isso, o PSDB consegue romper o dilema que pode afetar sua unidade. Brigas partidárias são curadas facilmente se não deixam consequências. Mas, para os tucanos que vão disputar eleições, o abraço em Temer pode representar a perda de votos e a perda de mandatos. E quem pagar por isso tendo se oposto não vai perdoar.

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